Ciência e Tecnologia: Instituto de Ciências Biomédicas da USP desenvolve parasita transgênico que ajuda a testar drogas contra transmissão da malária

Parasita transgênico reproduz em laboratório processo de infecção do mosquito que transmite malária para os seres humanos, permitindo que se testem drogas que poderão ser combinadas com medicamentos adotados no tratamento dos doentes – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

 

 

 

Cientistas desenvolveram um parasita transgênico da malária para triagem em larga escala de drogas que bloqueiam a transmissão da doença, em pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. O parasita reproduz em laboratório o processo de infecção do mosquito que transmite a doença para os seres humanos. A técnica será utilizada para testar drogas que poderão ser combinadas com medicamentos adotados no tratamento dos doentes.

 

 

A malária é transmitida pelo mosquito Anopheles, que é infectado pelo parasita ao picar pessoas infectadas. “Existem duas formas distintas do parasita. Uma, que se multiplica no sangue humano e causa a doença. A outra, que não se multiplica, infecta o mosquito”, diz o professor Daniel Bargieri, coordenador da pesquisa. “Essa forma, chamada de gametócito, chega ao mosquito e em menos de 15 minutos se transforma em gametas, que formam zigotos. A formação do zigoto é essencial para a progressão do ciclo de vida do parasita no mosquito até a geração das formas transmitidas durante uma nova picada.”

 

 

 

 

Segundo Bargieri, a meta era desenvolver um modelo experimental para testar em laboratório, em grande escala, drogas que impeçam a formação de zigotos no mosquito transmissor. “Essas drogas funcionariam como uma espécie de ‘cura’ do mosquito”, afirma Bargieri. “Para realizar os ensaios, os gametócitos são colocados em poços de uma placa de laboratório em um meio de cultura que imita as condições encontradas pelo parasita no mosquito. Assim, os gametócitos acham que estão no mosquito e formam os gametas e zigotos.”

 

 

 

 

 

Transmissão bloqueada

 

 

“Por exemplo, uma pessoa que vive em uma área com muita ocorrência de malária e tem a doença vai a um posto de saúde e o médico receita um antimalárico. Esse medicamento vai eliminar os parasitas que se multiplicam no corpo e a pessoa será curada. Mas os gametócitos, que infectam os mosquitos, seguem no sangue e a transmissão continua”, conta Bargieri. “A ideia é que as drogas que bloqueiam a transmissão sejam administradas em combinação com os antimaláricos atuais, de modo que a pessoa volte para casa curada e sem transmitir a doença.”

 

 

 

 

O estudo é descrito no artigo Screening the Pathogen Box against Plasmodium sexual stages using a new nanoluciferase based transgenic line of P. berghei identifies transmission-blocking compounds, publicado na revista Antimicrobial Agents and Chemotherapy, da American Society for Microbiology, nos Estados Unidos. O texto é assinado pelos pesquisadores Juliana Calit, Irina Dobrescu, Xiomara Gaitán, Miriam Borges, Marisé Solórzano, Richard Eastman e Daniel Bargieri.

 

 

 

A pesquisa teve a colaboração do National Center for Advancing Translational Science, órgão do National Institutes of Health (Estados Unidos) e foi financiada pelo Instituto Serrapilheira e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). As alunas que assinam o artigo, da pós-graduação do Departamento de Parasitologia do ICB, tiveram apoio de bolsas concedidas pela Fapesp, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

 

Ciclo de vida dos parasitas da malária. Ao alimentar-se de sangue, um mosquito dá origem à infecção. Numa primeira fase, os esporozoítos entram na corrente sanguínea, depositando-se no fígado. Em seguida, infectam as células hepáticas, nas quais se multiplicam formando merozoítos, os quais rasgam as células e regressam à corrente sanguínea. Por último, os merozoítos infectam os glóbulos vermelhos, nos quais se desenvolvem em formas anelares, trofozoítos e esquizontes, que por sua vez irão produzir mais merozoítos. São também produzidas formas sexuais capazes de infectar outro mosquito e dar continuidade ao ciclo de vida – Infográfico: Usien6 via Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

 

 

 

Da Redação com informações do Jornal da USP