São Paulo – Saúde: Grupo da USP desenvolve aplicativo para prevenir depressão materna

O aplicativo Motherly indica intervenções para evitar maiores riscos e incentiva a procura por ajuda profissional de acordo com o quadro apresentado – Foto: Ilustrativa: Pixabay

 

Um dos problemas de saúde mais discutidos atualmente, a depressão tende a ser mais comum entre gestantes e mães do que em outros grupos. Um estudo de 2016 publicado na revista The Lancet indica que países em desenvolvimento têm taxa de cerca de 25% de depressão durante a gestação.

 

 

Para auxiliar na prevenção, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) criou um aplicativo capaz de identificar sintomas depressivos em gestantes e mães. O Motherly, como foi chamado, indica intervenções para evitar maiores riscos e também incentiva a procura por ajuda profissional de acordo com o quadro apresentado.

 

 

O projeto está em processo de desenvolvimento, e uma versão preliminar será lançada em breve para mulheres que se candidataram para participar do período de testes, ainda como parte da pesquisa.

 

 

Além da saúde mental, o aplicativo também monitora aspectos como peso, qualidade do sono, nutrição e atividades físicas.

 

 

Falta de tratamento adequado agrava o problema

 

 

Embora não seja possível determinar as causas exatas da prevalência da depressão materna, acredita-se que esteja relacionada às várias mudanças hormonais e fisiológicas que acontecem durante a gravidez, conforme explica Daniel Fatori, doutor pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP e um dos responsáveis pelo Motherly. No Brasil, há ainda uma série de fatores que influenciam para que o problema seja mais recorrente, como gravidez precoce e insegurança financeira.

 

 

“O Brasil é um dos campeões em gestação na adolescência, e isso aumenta o risco de depressão. Além de todos os riscos relacionados à pobreza, como estresse e exposição à violência”, conta o pesquisador.

 

 

No caso de mulheres grávidas, o acesso a tratamento para depressão é especialmente delicado: enquanto a psicoterapia não é amplamente acessível, o uso de medicamentos demanda cuidados específicos – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

Além das mulheres, as consequências podem atingir também os filhos, já que crianças de mães com depressão têm maior risco de nascer com baixo peso, ter déficit de crescimento e no desenvolvimento cognitivo e motor. Ao longo da vida, elas também têm mais chances de apresentar problemas comportamentais, ter índice escolar ruim e, no futuro, desenvolver transtornos mentais.

 

 

 

Somado a isso tudo, está a dificuldade de encontrar atendimento profissional adequado. Fatori explica que “do ponto de vista psiquiátrico, a depressão na gestação tem uma complexidade própria quanto ao tratamento, não é qualquer medicamento que pode ser usado. O profissional tem que analisar o custo-benefício de usar alguma medicação”.

 

 

Por isso, o mais indicado para gestantes costuma ser a psicoterapia. Acontece que, no Brasil, ter acesso a esse tipo de tratamento é privilégio de poucos. Enquanto o serviço particular tem preços altos para a maioria das pessoas, no Sistema Único de Saúde (SUS), a demanda é muito alta para um baixo número de profissionais.

 

 

Juntos, esses fatores custam à sociedade muito mais do que se imagina: um estudo britânico estimou que, no Reino Unido, os custos da depressão e outros problemas relacionados à saúde mental materna podem chegar a 8,1 bilhões de libras por ano, considerando os efeitos diretos nas mães e a longo prazo nas crianças.

 

 

 

Tecnologia a serviço da saúde

 

No Motherly, a primeira coisa solicitada à gestante é que responda a algumas perguntas que ajudarão a montar seu perfil. Dessa forma, já é possível identificar sinais que merecem atenção. O aplicativo percebe indícios de alguma questão que pode se tornar clínica e promove algumas ações.

 

 

Para prevenir a depressão, o Motherly utiliza a chamada “ativação comportamental”. Como explica o pesquisador Daniel Fatori, ela é usada há décadas na clínica psicológica, e trata-se de incentivar o paciente a fazer atividades das quais gosta ou que lhe são importantes. A técnica parte do pressuposto de que, ao fazer essas atividades, os sintomas depressivos são naturalmente atenuados.

 

 

 

“A diferença foi que transformamos essa técnica numa coisa automatizada, no aplicativo não tem intermédio de seres humanos”, diz Fatori. “Fizemos uma versão automática, obviamente simplificando um pouco do que seria na clínica, para caber dentro do escopo de um aplicativo.”

 

 

Ao usar o Motherly, as mães e gestantes também monitoram a qualidade do sono e da alimentação, bem como a prática de exercícios físicos, e recebem dicas de como melhorar cada um desses aspectos da saúde. O aplicativo também é personalizado, de modo que as recomendações que cada usuária recebe são diferentes de acordo com seu perfil: a gestante só entrará no módulo de ativação comportamental, por exemplo, caso apresente sintomas depressivos.

 

 

 

A partir de algumas perguntas, aplicativo oferece interação personalizada para cada gestante de acordo com seu perfil – Foto: Reprodução / Motherly

Além das funções interativas, Fatori destaca também que o aplicativo possui muito conteúdo informativo e educacional, que ajudam a sanar diversas dúvidas quanto ao período perinatal. “Ao invés de ter que procurar na internet ou confiar em grupos de Whatsapp e informações de pessoas leigas, a mãe ou gestante terá acesso a conteúdo exclusivo feito pela nossa equipe de médicos, dentre psicólogos, nutricionistas e outras especialidades.”

 

 

Um dos fatores que influenciaram a criação do Motherly foi o projeto de pós-doutorado de Fatori, que coletou dados sobre interação entre mães e crianças recém-nascidas via aplicativo de celular. Ele conta que, com o estudo, foi possível perceber que mesmo em regiões pobres e em situação de vulnerabilidade as mães tinham acesso a smartphones e foram bastante receptivas a esse tipo de interação.

 

 

Fatori já fazia parte do grupo de pesquisa do professor Guilherme Polanczyk, do Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, que estuda questões relacionadas à primeira infância. Eles decidiram unir as pesquisas à tecnologia, e assim surgiu o Motherly. Além de Fatori e Polanczyk, fazem parte da equipe os psicólogos Adriana Argeu e Pedro Zuccolo, a nutricionista e educadora física Mariana Xavier e a médica pediatra Alicia Matijasevitch.

 

 

Agora, começa a fase de testes. Serão recrutadas mil gestantes entre 16 e 35 anos para participar do estudo. Cada metade delas terá acesso a uma versão do aplicativo: uma mais interativa, que exige participação mais ativa da usuária, e uma mais informativa. As mulheres serão acompanhadas durante a gravidez e os primeiros resultados da pesquisa devem ficar prontos a partir do segundo semestre do ano que vem.

 

 

A princípio, o Motherly serve de auxílio para todo o período da gestação e até três meses após o nascimento. A longo prazo, os pesquisadores querem desenvolver o aplicativo o suficiente para que ele possa ser utilizado até que a criança complete cerca de quatro anos. Para mais informações, acesse o site.

 

 

Da Redação com informações enviadas pelo Jornal da USP/Editorias: Ciências da Saúde/Matheus Souza