Ciência e Tecnologia: Remédio para diabete é testado contra câncer de cabeça e pescoço

Uso de metformina foi associado a uma redução no risco da doença em estudo feito na Faculdade de Saúde Pública da USP com mais de 2 mil participantes. Na imagem, teste de glicemia para detecção de diabete, doença contra a qual o remédio foi originalmente desenvolvido – Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Uso de metformina foi associado a uma redução no risco da doença em estudo feito na Faculdade de Saúde Pública da USP com mais de 2 mil participantes. Na imagem, teste de glicemia para detecção de diabete, doença contra a qual o remédio foi originalmente desenvolvido – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

 

 

Em um estudo feito com mais de 2 mil voluntários em cinco hospitais do Estado de São Paulo, o uso de metformina – um dos medicamentos antidiabéticos mais prescritos no mundo – foi associado a uma redução no risco de câncer de cabeça e pescoço.

 

 

 

A diminuição foi mais acentuada, em torno de 60%, entre os voluntários considerados de alto risco para a doença – aqueles que consumiam mais de 40 gramas de álcool por dia (o equivalente a três latas de cerveja) e mais de 40 maços de cigarro em um ano.

 

 

 

Os dados foram apresentados por Victor Wünsch Filho, professor da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, no congresso Next Frontiers to Cure Cancer, organizado pelo A.C. Camargo Cancer Center.

 

 

 

 

“Estudos anteriores já haviam mostrado uma associação entre diabete, uso de metformina e uma redução no risco de outros tipos de câncer, como pulmão, cólon e pâncreas. No caso dos tumores de cabeça e pescoço, porém, os dados existentes na literatura científica eram muito contraditórios. Por isso decidimos investigar melhor”, contou Wünsch.

 

 

 

 

O estudo do tipo caso-controle foi realizado durante o doutorado de Rejane Figueiredo, como parte do projeto Genoma do Câncer de Cabeça e Pescoço (Gencapo), que reúne cientistas de diversas instituições e é apoiado pela Fapesp.

 

 

 

Os resultados foram publicados na revista Oral Oncology. Foram incluídos, ao todo, 1.021 portadores de câncer de cabeça e pescoço – um conjunto heterogêneo de tumores que afeta locais como a cavidade oral (lábios, língua, assoalho da boca ou palato), os seios da face, a faringe e a laringe – além das glândulas, vasos sanguíneos, músculos e nervos da região.

 

 

 

 

Mais prevalente nos países em desenvolvimento, representa o 9º tipo de câncer mais comum no mundo, com 700 mil novos casos anuais segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Tabaco e álcool são ainda considerados os principais fatores de risco, embora tenha crescido nos últimos anos o número de casos associados à infecção pelo papilomavírus humano (HPV), principalmente entre os pacientes mais jovens.

 

 

 

Na pesquisa, os portadores da doença foram divididos em cinco subgrupos: cavidade oral, orofaringe, hipofaringe, laringe e orofaringe/hipofaringe não especificado.

 

 

 

Já no grupo-controle, foram incluídos 1.063 participantes sem a doença – selecionado entre pessoas que visitavam pacientes internados no hospital ou que estavam no serviço de saúde para atendimento ambulatorial de problemas não relacionados ao câncer, como doenças de pele, trato urinário, fraturas ou questões oftalmológicas, por exemplo.

 

 

 

“Excluímos aqueles que tinham doenças associadas ao uso de álcool e tabaco e também os visitantes de pacientes com câncer de cabeça e pescoço, dada a grande probabilidade de eles estarem expostos aos mesmos fatores de risco dos doentes, o que poderia enviesar os resultados”, explicou o pesquisador.

 

 

 

 

Todos os participantes responderam a um questionário com dados sobre o perfil sociodemográfico, estilo de vida (consumo de cigarro e álcool, entre outros fatores) e condições de saúde (se eram portadores de diabete, se faziam uso de metformina e se tinham histórico familiar de câncer, entre outros). Também foram coletadas amostras de sangue que, no presente estudo, foram usadas para fazer o teste hemoglobina glicada, um dos mais precisos para diagnosticar o diabete.

 

 

 

“Cruzamos as informações dos questionários, dos prontuários médicos e dos testes de sangue para fazer as análises estatísticas e esse foi um dos diferenciais do estudo. Se tivéssemos considerado como diabéticos apenas aqueles que se apresentaram como tal o número seria muito menor”, contou Wünsch.

 

 

 

 

Os participantes com diabete foram depois subdivididos entre os que faziam ou não uso de metformina. “Consideramos no grupo metformina somente os pacientes em que a informação sobre o uso do fármaco constava do prontuário médico. Ficaram de fora nesse quesito, portanto, os voluntários que estavam no hospital apenas como visitantes”, explicou.

 

 

 

Nas análises que consideraram o uso de metformina, foram incluídos 1.021 casos (pacientes com câncer de cabeça e pescoço) e 587 controles hospitalares.

 

 

 

O artigo Diabetes mellitus, metformin and head and neck cancer, de Rejane Augusta de Oliveira Figueiredo, Elisabete Weiderpass, Eloiza Helena Tajara, Peter Ström, André Lopes Carvalho, Marcos Brasilino de Carvalho, Jossi Ledo Kanda, Raquel Ajub Moyses e Victor Wünsch-Filho, pode ser lido no site da revista Oral Oncology.

 

 

 

Da Redação com informações provenientes da Karina Toledo  / Agência Fapesp