Internacional: Presidente Francês quer “punições exemplares” no escândalo de militares franceses envolvidos em abusos sexuais em Bangui

Quatorze soldados franceses são suspeitos de haver cometido abuso sexual contra crianças em Bangui, na República Centro-Africana. AFP PHOTO / ERIC FEFERBERG
Quatorze soldados franceses são suspeitos de haver cometido abuso sexual contra crianças em Bangui, na República Centro-Africana.
AFP PHOTO / ERIC FEFERBERG

 

 

O presidente francês, François Hollande, prometeu nesta quinta-feira (30) “punições exemplares”, caso as acusações de abusos sexuais de menores da República Centro-Africana por militares franceses sejam confirmadas. A denúncia foi publicada ontem pelo jornal inglês The Guardian.

 

Hollande classificou as acusações como “graves” e disse que será “implacável” se os casos forem confirmados. “Vocês sabem a confiança que eu tenho nas Forças Armadas francesas. Nenhuma mancha deve estragar o uniforme dos nossos militares”, declarou.

 

 

A ONU confirmou ter realizado uma investigação para apurar denúncias de abusos sexuais cometidos por soldados franceses na República Centro-Africana. O testemunho das vítimas, cerca de 12 crianças, no campo de refugiados do aeroporto de M’Poko, em Bangui, já foram recolhidos.

 

 

Silêncio durante um ano

 

 

O exército francês está presente no país africano desde dezembro de 2013 para conter uma guerra civil que apresentava risco de genocídio. Os crimes teriam ocorrido entre dezembro de 2013 e junho de 2014.

 

 

Nesta manhã, as Forças Armas realizaram uma coletiva de imprensa e explicaram porque mantiveram silêncio sobre o caso por quase um ano. “O exército não tornou público esses fatos porque queríamos dar tempo para a justiça apurar o que realmente aconteceu. Se as denúncias forem confirmadas, elas vão de encontro aos nossos valores”, declarou o porta-voz das Forças Armadas da França, o coronel Gilles Jaron. Ele garantiu que se o caso for confirmado, os militares envolvidos serão punidos severamente.

 

 

“Transparência total”

 

A justiça francesa investiga desde julho estas suspeitas. O Estado-maior e o ministério da Defesa prometeram esta quinta-feira a “transparência total” deste dossier.

 

 

O porta-voz do minsitério da Defesa esclareceu que em julho de 2014 os ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Defesa foram contactados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os direitos humanos. O chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas deu então início a um inquérito interno. No quadro desta investigação, as autoridades francesas ter-se-ão deslocado a Bangui.

 

 

Na quarta-feira, o jornal “The Guardian” revelou que um relatório confidencial da ONU sobre estes abusos sexuais foi trazido a público pelo sueco Anders Kompass, diretor de operações do Alto Comissariado das Nações Unidas para os direitos humanos, em Genebra, e que, por essa razão, Kompass foi afastado de funções em julho de 2014.

 

 

Segundo o porta-voz adjunto da ONU, Farhan Haq, Kompass foi suspenso por ter entregue os resultados da investigação às autoridades francesas, enquanto decorre um inquérito sobre esta “grave desobediência aos procedimentos” internos. A ONU critica Kompass por ter entregue a Paris o relatório sem consultar os seus superiores e sem o cuidado de antes retirar do documento os nomes das vítimas, das testemunhas e dos responsáveis pela investigação, falta que poderia ter “colocado em perigo” estas pessoas.

 

 

O embaixador da Suécia junto das Nações Unidas preveniu entretanto a organização de que eventuais pressões sobre Kompass parta que se demita do Alto Comissariado não seria uma boa decisão.

 

 

Comida em troca de sexo
 

O relatório confidencial da ONU foi transmitido ao “The Guardian” por Paula Donovan, da ONG Aids Free World, que acompanha casos de violações e abusos sexuais cometidos no quadro de missões de manutanção da paz.

 

 

Donovan pede que seja uma comissão independente de inquérito investigue estas denúncias. Sobre o documento, diz que nele estão contidos os testemunhos de seis crianças com idades entre 8 e 15 anos, que falam de sevícias sexuais e violações.

 

 

Segundo Donovan, uma dezena de crianças terá sido vítima destas abusos. As testemunhas identificaram dezasseis soldados envolvidos nas violações. Explicam com detalhes as circunstâncias e explicam que foram aliciados em troca de comida. A maior parte são orfãos que vivem na rua. Relatam que, quando pediram comida aos soldados da missão de manutenção da paz, a resposta foi: “Hás-de comer, mas em troca de sexo”.

 

 

Da Redação com informações de Agências Internacionais, RFI e da Euronews