Tecnologia: Cientistas desenvolvem novas variedades agrícolas com participação dos produtores rurais

Batata BRS Camila - Foto: Giovani Silva
Batata BRS Camila – Foto: Giovani Silva

 

 

 

Lançada recentemente, a batata BRS Camila foi desenvolvida com a participação de membros da cadeia produtiva da batata. Registrada sob o nome cultivar BRS F63, a nova variedade foi gerada por pesquisadores da Embrapa Clima Temperado (RS), da Embrapa Hortaliças (DF) e da Embrapa Produtos e Mercado (SC) e contou com a participação de produtores rurais e representantes da indústria de processamento, seguindo parcialmente premissas do chamado melhoramento participativo, em que atores que trabalharão com o material têm voz e ajudam a escolher características e a validar desempenhos. O mesmo método, de forma completa, foi aplicado pelo Programa de Melhoramento Genético da Mandioca da Embrapa gerando produtos que respondem melhor às demandas e necessidades do produtor.
 

Para desenvolver a BRS Camila, a participação da cadeia se deu na definição do tipo de produto de interesse. Produtores rurais procuravam uma cultivar que pudesse ser utilizada no mercado fresco, com maior adaptação ao sistema produtivo e ao tipo de comercialização vigente, além de apresentar mais qualidade em relação às cultivares existentes no mercado.
 

 

Dentre as características inovadoras da nova cultivar está o seu maior tempo de prateleira, uma vantagem importante na comercialização. Para isso, a nova batata deveria apresentar maior teor de matéria seca, para que pudesse durar mais tempo e, assim, ter período de comercialização maior. A uniformidade de tamanho dos tubérculos foi outra exigência atendida. Quanto maior a percentagem de batatas de tamanho classificado como especial, maior a rentabilidade da produção.

 

 
Um terceiro ponto de interesse dos produtores foi a resistência ao vírus Y da batata, que causa rápida degeneração da semente. Assim, foi possível reduzir custo de produção e, consequentemente, aumentar a lucratividade aos produtores. “Tudo isso, sem esquecer do alto potencial produtivo, obviamente uma das principais demandas do setor,” reforça o pesquisador da Embrapa Arione Pereira, um dos responsáveis pelo desenvolvimento da BRS Camila e líder do Programa de Melhoramento de Batata da Embrapa.

 
Durante os onze anos de pesquisa que culminaram no lançamento da BRS Camila, a cadeia da batata teve participação importante em vários momentos. Desde 2004, quando o Programa de Melhoramento da Embrapa foi unificado e estruturado, os pesquisadores têm realizado reuniões com produtores e representantes da indústria nas principais regiões produtoras de batata do País em Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás e Bahia. Nos encontros são captadas demandas da cadeia, com prestação de contas dos avanços obtidos no programa de melhoramento e ainda a busca e o oferecimento de colaboração.

 
Além das reuniões, a realização de visitas técnicas e o contato direto com produtores, indústria e outros segmentos da cadeia da batata servem para manter a proximidade entre esses atores. A última reunião ocorreu no início de 2014, no Município de Araxá, e focou no desenvolvimento de cultivares de batata para a indústria. Na ocasião, os participantes visitaram as instalações de uma fábrica de batata pré-frita congelada e uma fazenda da empresa, onde foi possível apresentar cultivares da Embrapa, os avanços nas pesquisas e saber mais sobre as demandas da indústria.

 
Vantagens da participação do produtor

 
Na percepção do pesquisador, existem duas vantagens na metodologia participativa. Com o contato mais estreito e frequente com os produtores, a pesquisa pode se certificar de que o material é, de fato, de interesse e atende a necessidade da cadeia, o que também facilita a etapa de transferência e apropriação da tecnologia, uma vez que os produtores já terão conhecimento sobre o material para implantar em suas propriedades e compartilhar com os demais.
 

 

Outra vantagem também está na validação direta por quem efetivamente fará uso dos materiais disponibilizados pela pesquisa. Alguns produtores selecionados recebem sementes de clones ainda em testes para observação final a campo. No caso da BRS Camila, um produtor chegou a avaliar área total superior a um hectare. “Essa parte de validação é de interesse mútuo, tanto que a Embrapa está firmando um contrato de cooperação com a Associação Brasileira da Batata para que se ampliem ainda mais esses testes dos novos clones para subsidiar a decisão de lançamento como cultivar”, acrescenta Arione.

 

 
Em outra ponta da cadeia, a indústria atua na avaliação do processamento, de acordo com a finalidade de cada cultivar testada. Tanto no caso do produtor quanto da indústria, o processo de avaliação ainda é considerado parte do melhoramento e incide diretamente sobre a conclusão se a nova cultivar trará vantagens à cadeia ou não. “Nós só fazemos lançamentos que são aprovados por um grupo de produtores”, afirma o pesquisador. Outro ponto importante é que o processo participativo é permanente, seja com as organizações produtoras, com as indústrias de processamento, ou com produtores individuais.

 
Melhoramento participativo da mandioca

 

 
Segundo Clóvis Oliveira de Almeida, pesquisador da área de socioeconomia da Embrapa Mandioca e Fruticultura (Cruz das Almas, BA), de um modo geral, as variedades melhoradas pela pesquisa ainda são pouco usadas no Brasil. “Talvez isso ocorra porque não sejam difundidas adequadamente. A metodologia participativa minimiza esses problemas”, afirma.
 

 

O uso de metodologias participativas no Nordeste brasileiro marcou uma nova etapa na pesquisa com variedades para a região e se constituiu em uma das ferramentas mais eficientes para elevar o nível de adoção e difusão das variedades geradas pela pesquisa, agilizando a sua incorporação ao sistema produtivo dos agricultores e ampliando a diversidade genética de mandioca nas lavouras.
 

 

Até 2007, o programa de melhoramento fez mais de 500 provas participativas com agricultores, em grande número de comunidades e municípios dos estados da Bahia, Pernambuco, Ceará, Sergipe e Maranhão, sendo cada prova constituída por variedades tradicionais e novas, geradas pelo programa de melhoramento.

 

 
A Unidade tem história quando se fala no assunto. Ao longo dos anos, com a participação dos agricultores e com o apoio de parceiros, foram geradas diversas variedades de mandioca, como BRS Kiriris (resistente à podridão de raízes, doença mais prejudicial à cultura em vários ecossistemas), BRS Formosa (resistente à bacteriose, tolerante à seca e com boa qualidade de amido), BRS Dourada, BRS Gema de Ovo e BRS Jari (para o consumo fresco, ricas em carotenoides, biofortificadas).

 

 
Na região do semiárido de Sergipe, por exemplo, a substituição das variedades locais pelas variedades BRS Aramaris e BRS Kiriris, tolerantes à podridão radicular, foi responsável por um aumento médio de 84,75% na produtividade. No sudoeste baiano, os relatos foram tão impressionantes depois da adoção da BRS Formosa que mereceram, em 2008, um estudo de avaliação de impactos, realizado por Clóvis Almeida. Também deram origem ao projeto de transferência de tecnologia “Impacto da pesquisa participativa do melhoramento genético da mandioca no bioma caatinga”, em andamento, liderado por Clóvis.

 
Um dos produtores participativos foi Rozildo Vieira dos Santos, do assentamento Caxá, em Marcionílio Souza, Bahia. “Há quase 15 anos, a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) instalou um campo de mandioca na minha propriedade e a Embrapa se prontificou a trazer várias variedades de mandioca e, então, tivemos um período de mais de dois anos testando. A partir daí, os resultados foram bons, o material foi para outras regiões com a ajuda da Embrapa. Por fim, no lançamento, o resultado foi bastante satisfatório porque quatro variedades responderam bem”, recorda.

 

 
Trabalho reconhecido

 
O trabalho com pesquisa participativa levou a pesquisadora aposentada Wania Fukuda a vencer, em 2008, a 30ª edição do Prêmio Frederico de Menezes Veiga, promovido pela Embrapa com o apoio da revista Globo Rural, cujo tema foi “Integração Pesquisa e Extensão: Fator de sucesso da moderna agricultura brasileira”.

 
A aplicação do modelo participativo facilitou o entendimento sobre as vantagens e desvantagens da adoção do produto gerado pela pesquisa, fazendo com que as variedades melhoradas fossem efetivamente adotadas pelos agricultores de base familiar. “Eu estava inconformada porque as variedades desenvolvidas não chegavam ao pequeno produtor, já que a extensão dava prioridade às grandes culturas”, reconheceu Wania à época. Por isso, ela trouxe do Centro Internacional de Agricultura Tropical (Ciat) uma metodologia de pesquisa participativa e a adaptou à realidade brasileira.

 

 
“Quando se faz um trabalho adequado às necessidades do agricultor, isso realmente resulta em impacto na sua qualidade de vida. Com a metodologia participativa, a relação fica muito mais estreita, pois encontramos pesquisadores natos em alguns agricultores. Eles sentem a presença da Embrapa e descobrem como a pesquisa pode colaborar com o seu dia a dia”, explicou Wania. A percepção da necessidade do agricultor pode até mesmo mudar o rumo de uma pesquisa. “Em Araripina (PE), por exemplo, levamos variedades de casca escura para os testes, mas os produtores rejeitaram e pediram variedades de casca clara”, lembra.

 

 

 

Da Redação com informações de Francisco Lima – Embrapa Clima Temperado