Petrolão: Petrobras cancelou refinarias no Maranhão e Ceará porque denúncias da Lava Jato dificultaram crédito

Comissão externa da Câmara está investigando as razões do cancelamento de refinarias da Petrobras no Maranhão e no Ceará. - Foto: Antonio Araújo / Câmara dos Deputados
Comissão externa da Câmara está investigando as razões do cancelamento de refinarias da Petrobras no Maranhão e no Ceará. – Foto: Antonio Araújo / Câmara dos Deputados

 

 

 

A decisão da Petrobras de suspender as obras de instalação de duas refinarias Premium no Maranhão e Ceará está ligada à dificuldade da estatal de obter financiamento para bancar os projetos. A afirmação foi feita nesta quarta-feira (25) pelo consultor legislativo da Câmara dos Deputados Paulo César Ribeiro Lima, durante audiência pública da comissão externa que investiga a paralisação dos empreendimentos.

 

 

A dificuldade de captação teria surgido na esteira das denúncias da Operação Lava Jato, que investiga corrupção na estatal. Elas comprometeram a imagem diante dos investidores e a saúde fiscal da empresa, que em janeiro teve sua nota de crédito rebaixada pela agência de classificação de risco Moody’s.

 

 

Sem conseguir o aval financeiro para os projetos, a estatal optou por cancelá-los, gerando um prejuízo de R$ 2,7 bilhões para o seu caixa – R$ 2,1 bilhões referentes a Premium I (MA) e R$ 600 milhões a Premium II (CE). O valor refere-se a obras que vinham sendo feitas nos locais de instalação, como de terraplanagem. Bacabeiras (MA) e Caucaia (CE) iriam abrigar as unidades de refino da estatal.

 

 

Parceiro

 

 

Na semana passada, o gerente-executivo de Programas de Investimento da área de Abastecimento da Petrobras, Wilson Guilherme Ramalho da Silva, afirmou, em audiência pública na comissão externa, que o cancelamento foi motivado por fatores econômicos, mas não citou a dificuldade de financiamento.

 

 

Segundo o consultor da Câmara, a estatal não possui geração de caixa próprio para financiar os dois empreendimentos. Isso só poderia ser feito caso ela desistisse de outros investimentos. Além disso, a companhia privilegia a produção e exploração de petróleo, que são mais rentáveis.

 

 

“O cancelamento de Premium I e Premium II está intimamente ligado à dificuldade de captação de recursos extras para investir em uma área que não é prioritária [para a empresa]”, disse Lima. “Quando a gente ouve aqui a notícia de que [a Moody’s] rebaixou, isso tem uma relação direta com investimento em refino”, afirmou Lima.

 

 

 

De acordo com o consultor, que atua na área de recursos minerais, hídricos e energéticos, auxiliando os deputados na elaboração de projetos de lei, a suspensão dos dois investimentos pode colocar em xeque o futuro do abastecimento de derivados do País.

 

 

O Brasil é dependente da importação de gasolina e óleo diesel. Como as duas refinarias iriam ampliar a produção de diesel, o cancelamento torna maiores as projeções de importação do combustível nos próximos anos.

 

 

Sem iniciativa privada

 

 

Lima descartou a possibilidade de que empresas privadas possam assumir os projetos do Ceará e Maranhão. Segundo ele, além de o retorno financeiro ser menor, o refino no Brasil não tem uma política de preços transparente, o que afasta os investidores.

 

 

Apesar de os preços serem legalmente liberados, o governo acaba influindo na definição do valor na bomba, entre outras razões para controlar a inflação. “Não existe qualquer possibilidade de uma empresa privada investir em refino no País”, disse.

 

 

O consultor fez uma série de sugestões aos integrantes da comissão. Uma delas é a criação de uma política transparente de preços para os derivados. As outras são: a obrigação de refinar no País parte do petróleo extraído no território nacional; a ampliação do refino da gasolina, cuja situação é mais grave do que a do diesel no futuro; e a retomada imediata dos projetos de Premium I e Premium II.

 

 

Petrobras na comissão

 

Antes do início da audiência pública, os integrantes da comissão fizeram duras críticas à estatal petrolífera pela ausência de dois gestores que haviam sido convidados para falar hoje: o diretor de Abastecimento, Jorge Celestino Ramos, e o diretor-geral da Refinaria Lubrificantes e Derivados do Nordeste (Lubnor), Fábio Lopes de Azevedo. Ambos enviaram ofícios informando que não poderiam comparecer por compromissos assumidos anteriormente.

 

 

A coordenadora do colegiado, deputada Eliziane Gama (PPS-MA), criticou a ausência deles. “Não podemos admitir que eles mandem ofício sem uma justificativa cabível”, disse. Já o relator da comissão, deputado Raimundo Gomes de Matos (PSDB-CE), criticou o fato de o gerente do escritório de Brasília, João Lima Romeiro, ter enviado um ofício sugerindo uma reunião dos membros da comissão no Rio de Janeiro, onde fica a sede da estatal. “Ele nos convidou para uma reunião invertendo os papéis. Ou essa comissão se impõe, ou nós seremos atropelados”, disse Matos.

 

 

 

Depois de muita discussão, o colegiado decidiu formular um novo convite aos dois gestores. A deputada Eliziane Gama disse que se eles não comparecerem, poderá pedir a convocação de ambos na CPI da Petrobras, do qual também é membro.

 

 
Da Redação com Fonte da Agência Câmara Notícias